sábado, 3 de dezembro de 2011

A internet não é meio de comunicação

Como comentei no nosso 3º Entrelace, achei muito interessante a visão do Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM, sobre a internet e queria compartilhar com vocês. Vejam o artigo que ele escreveu para o Jornal O estado de S. Paulo.

A internet não é meio de comunicação

No início do mês (dia 3 de outubro) a Suprema Corte, nos Estados Unidos, decidiu que baixar uma música da internet não equivale a exibir essa mesma música em público. Portanto, ao copiar o arquivo de uma canção no seu computador, o consumidor não deve ser tratado como alguém que toca essa mesma canção para uma grande audiência, no rádio ou num show.

Ora, dirá o leitor, nada mais óbvio. Baixar uma faixa de CD é mais ou menos como copiar no gravador de casa uma canção que a gente sintoniza na FM. Trata-se de um ato doméstico, que não se confunde com executar uma obra musical para uma plateia de 5 mil espectadores. No entanto, até hoje, o pensamento oficial sobre a internet - em especial o pensamento das Cortes de Justiça - carrega uma tendência de equipará-la aos meios de comunicação de massa. Um erro grosseiro e desastroso. Além de obtusa, essa visão traz consequências perversas, como a que levou parlamentares brasileiros, há coisa de dois anos, a tentarem aprovar uma lei que impedia os cidadãos de manifestarem suas opiniões sobre as eleições em sites e blogs durante o período eleitoral, como se a rede mundial de computadores fosse da mesma família que as redes de televisão e de rádio, que funcionam sob concessão pública.

O furor censório dos parlamentares acabou não vingando, para alívio da Nação, mas o conceito equivocado em que ele plantou seu alicerce continua aí. Por isso a recente decisão da Suprema Corte, negando as pretensões econômicas e intimidatórias da American Society of Composers, Authors and Publishers (Ascap), interessa especialmente a nós, brasileiros. Ela constitui um argumento a mais para que expliquemos aos retardatários (autoritários) que nem tudo o que vai pela internet é comunicação de massa. Aliás, quase nada na internet é comunicação de massa. Para as relações políticas e jurídicas entre os seres humanos essa distinção elementar faz uma diferença gigantesca.

A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo tempo - mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas, sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam cartas. O Skype e outros programas vieram para baratear e melhorar os velhos telefonemas, com a vantagem de mostrar aos interlocutores a cara um do outro. Logo, dirá a autoridade pública, a rede mundial de computadores internet é uma Torre de Babel em que todos os meios de comunicação se encontram e se confundem, certo?

Errado. A humanidade comunica-se pela internet - só no Brasil já são quase 80 milhões de usuários -, mas isso não significa que ela seja, como gostam de dizer, uma "mídia" que promove a convergência de todas as outras "mídias". Ela é capaz de fornecer ferramentas para que um conteúdo atinja grandes audiências de um só golpe, ao vivo, assim como permite que duas pessoas falem entre si, reservadamente. Acima disso, porém, ela abre outras portas, muitas outras. Pensá-la simplesmente pelo paradigma da comunicação é estreitá-la, amofiná-la - e, principalmente, ameaçar a liberdade que ela encerra.

A internet também é comércio: os consumidores fazem compras virtualmente - mas isso não nos autoriza a dizer que ela possa ser regulada como se fosse um shopping center. Vendem-se passagens aéreas e pacotes turísticos pela rede, mas ela não cabe na definição de agência de viagens. Correntistas acessam suas contas bancárias e pagam contas sem sair de casa, mas a internet não é banco, e, embora quitemos nossos impostos pelo computador, ninguém há de afirmar que a web é uma extensão da Receita Federal. Ela é tão ampla como são amplas as atividades humanas: aceita declarações de amor, assim como aceita lances ousados da especulação imobiliária. Nela a vida social alcança plenamente outro nível, que não é físico, mas é real, tão real que afeta diretamente o mundo físico, sendo capaz de transformá-lo. Mais que meio de comunicação, a internet é, antes, a sociedade num segundo grau de abstração. Se quiserem comparações, ela tem mais semelhança com a rede de energia elétrica do que com um aparelho de TV ou com o alto-falante na praça do coreto.

Para efeitos da regulamentação e da regulação, a internet não cabe num regime. Ela é capaz de abrigar tantos regimes quanto a própria vida em sociedade - e, assim como a vida em sociedade, é maior que o direito positivo. Ela, sim, pode conter e processar decisões judiciais e trâmites processuais, mas estes não podem contê-la, explicá-la ou discipliná-la por inteiro. Pretender controlá-la, taxá-la, pretender instalar pedágios em cada nó seria equivalente a começarmos a cobrar direitos autorais de quem empresta um livro de papel à namorada, ou, pior ainda, seria como sujeitar as conversas de botequim à legislação do horário eleitoral na televisão e no rádio.
A rede de computadores trouxe uma expansão sem precedentes a uma categoria que, nos estudos de sociologia e de comunicação, ganhou o nome de "mundo da vida". Trata-se de um conceito contíguo a outro, mais conhecido, o de "esfera pública". Nesta se encontram os temas de interesse geral dos cidadãos. No "mundo da vida" moram as práticas sociais mais arraigadas, a rotina mais prosaica, os nossos modos de amar, de velar os mortos ou, se quiserem, de conversar no botequim. Não por acaso, daí, desse mundo da vida, é que brota a esfera pública democrática; a própria imprensa nasceu dos saraus e das tabernas, quando aí se começou a criticar o poder.

Por isso, enfim, as formas de livre expressão na internet precisam estar a salvo do poder do Estado e da voracidade dos grupos econômicos. Por isso a decisão da Suprema Corte é bem-vinda.

Cai mito do jornalismo grátis, diz Keller, do 'NYT'

Cai mito do jornalismo grátis, diz Keller, do 'NYT'

O jornalista Bill Keller liderou a construção do mais discutido modelo de negócios para a mídia no ano: o chamado "muro de cobrança" do jornal "The New York Times".
"Está funcionando tão bem quanto esperávamos ou melhor", afirma Keller, em entrevista a Roberto Dias, editor de Novas Plataformas da Folha, publicada nesta quarta-feira.

Conteúdo jornalístico on-line deve ser cobrado?
Segundo ele, o "mito" de que toda informação deve ser gratuita acabou.

"Jornalismo de serviço público exige muito tempo e investigação. É preciso ter advogados do seu lado. Jornalismo que exige ir a lugares longínquos e perigosos não estará disponível gratuitamente. Jornalismo muito local, aquele tipo realmente importante de jornalismo sobre o que está acontecendo na sua vizinhança, ou na capital do seu Estado, esse tipo de coisa ninguém está fazendo gratuitamente."

Inaugurado em março, o "paywall" do "NYT" envolveu todas as plataformas e abriu um novo caminho para a velha discussão sobre cobrar ou não pelo conteúdo.
O pulo do gato do diário foi montar um sistema flexível, que busca conciliar o modelo de assinaturas, originado do jornal impresso, com a corrida por audiência na web.

Cada internauta pode ler gratuitamente 20 textos do "NYT" por mês. A partir daí, o jornal oferece pacotes para leitores que querem ver o jornal sem restrições --o sistema contempla tablets e celulares. A assinatura começa em US$ 15 mensais (R$ 26).
O modelo, porém, é cheio de "furos" propositais. A home page não é contada entre os 20 cliques gratuitos. Links colocados em redes sociais também não. Em seu último balanço, divulgado no mês passado, o jornal disse ter 324 mil assinantes digitais.
Em setembro, após a implantação do novo modelo, Keller deixou, a pedido, o cargo de editor-executivo do "NYT" e retomou sua função anterior, de colunista do jornal.
Na entrevista, ele afirma ainda que, em cinco anos, o número de assinantes digitais do jornal irá ultrapassar o da versão impressa.

Matéria publicada no site Folha.com, no dia 16/11/2011

Castells: o poder na ponta de uma antena

Entrevista publicada no site Outras mídias, no dia 6 de abril de 2011 – não é tão atual, mas é muito interessante

Castells: o poder na ponta de uma antena

Em entrevista ao Esquerda.net, sociólogo catalão afirma: internet e o wireless romperam definitivamente o monopólio da comunicação filtrada por governos e empresas

Por Giancarlo Bosetti| Tradução Moisés Sbardelotto

Nos últimos anos e também no seu livro mais recente, “Comunicação e Poder”, Manuel Castells teorizou sobre a instauração de um progressivo equilíbrio entre os velhos poderes mediáticos (comunicação de massa, entretenimento, sociedade de telecomunicações, produções televisivas etc.) e as novas oportunidades oferecidas pelos telemóveis, pelas redes sociais e por todos aqueles dispositivos quase sempre mais difundidos em nível global. Parece ter se tratado de um balanço sem um resultado predeterminado. O que está actualmente a ocorrer no mundo árabe parece, de repente, convalidar o fim desse equilíbrio.

Parece que ocorreu algo revolucionário: num certo ponto, foi definitivamente ultrapassado um limiar crucial. Está de acordo?
Sim, já que, se tivéssemos acompanhado de perto o que está a ocorrer nas sociedades de todo o mundo, principalmente na faixa da população acima dos 30 anos, teríamos nos dado conta de que os sinais já estavam aí. No meu livro publicado em Agosto de 2009, a análise proposta indicava já claramente como as redes horizontais de comunicação típicas da Internet e do wireless ofereciam aos movimentos sociais oportunidades de grande duração, maiores em termos de auto-mobilização e auto-organização, a partir do momento que a comunicação é a chave de toda actividade humana e que a Internet e o wireless definitivamente romperam o monopólio da comunicação filtrada por governos e empresas. O poder está na antena do próprio dispositivo de comunicação móvel, porque é o que conecta entre si as mentes das pessoas.

Vivemos hoje num contexto de transparência? Entre as faixas mais altas e as mais baixas da sociedade e o poder político, assistimos talvez a uma mudança irreversível?
É irreversível porque a tecnologia da comunicação opera uma desintermediação da comunicação de massa e porque nos encontramos no meio da revolução digital. A partir do momento em que é muito difícil conseguir controlar as redes (o Egipto tentou isso e fracassou totalmente), o mundo em que vivemos é caracterizado por um fluxo em grande parte livre de comunicação. Certamente, os mensageiros podem ser identificados e punidos, mas as mensagens seguem em frente pelo seu caminho. Dessa forma, se os poderes existentes não podem controlar as mentes, as pessoas são livres, pelo menos intelectualmente. Como isso se traduz em autonomia social e liberdade política depende dos processos específicos e das sociedades específicas, mas certamente estamos a assistir à aurora de uma nova era de profundas mudanças sociais e políticas.

As tecnologias horizontais de “autocomunicação de massa” (como lhes chama) parecem produzir consequências diferentes nos contextos diferentes. Em situações dramáticas, em sociedades opressivas e pobres, parece que elas se tornaram verdadeiramente uma arma de liberdade, um instrumento de segurança, revolucionário. Nas sociedades ricas, ao contrário, não parece que essas tecnologias sejam capazes de ajudar a esfera política a manter sob controlo o populismo galopante. Ao contrário.
Não estou de acordo. Em todos os casos, a Internet está a favorecer os movimentos populares e uma expressão mais livre da sociedade, deixando de lado o establishment político. A questão é que os modos em que a liberdade é explorada não são garantidos pela própria liberdade. Nos EUA, Obama não teria sido eleito sem o emprego da Internet numa extraordinária campanha popular que mobilizou jovens e minorias. Mas o Tea Party também é um movimento popular, semifascista e populista, e para a sua difusão e influência a Internet também se revelou crucial, porque Obama perdeu a batalha para conquistar a mente das pessoas, e a esquerda está completamente desmobilizada, apesar do facto de a batalha do Wisconsin (um exemplo do caro velho movimento de trabalhadores) aparecer hoje como um sinal de contra-ataque.

Não podemos ceder ao determinismo tecnológico. A Internet garante a comunicação livre, mas os conteúdos dessa liberdade dependem dos actores sociais.

Qual é a sua reacção diante de mudanças tão fortes na nossa região?

Penso que a Europa está a atravessar uma profunda crise política. As instituições, os partidos, os líderes estão aprisionados na sua própria história, nos seus próprios interesses pessoais e, nalguns casos, na sua própria corrupção. Estão completamente retirados da sociedade e, particularmente, da sociedade futuro, isto é, das gerações mais jovens e das mulheres.

A Itália é paradigmática nesse sentido. O fato de um personagem corrupto e desagradável como Berlusconi poder ser eleito mais de uma vez está ligado ao desconforto que os italianos já alimentam com relação a toda a classe política. Nesse ponto, é essencial a reconstituição da autonomia política em nível da base popular, e isso depende conjuntamente da instauração de comunicações horizontais entre os indivíduos que bypassem [passem por cima da autoridade] a captura dos média tradicionais. Nesse sentido, o mundo árabe, na sua forma laica e democrática, pode indicar o caminho para a Europa, séculos depois que a cultura árabe já iluminou as até então bárbaras sociedades cristãs.